Falar de vínculos afetivos no ambiente do ensino remoto ou mesmo no modelo de ensino híbrido parece desafiador para muitas escolas. Com o prolongamento da pandemia, as aulas on-line se tornaram rotina e não é incomum encontrar educadores com dificuldade para manter ou despertar o engajamento de suas turmas pela internet.
E para refletir conosco sobre esse tema, entrevistamos a cientista social, pedagoga e consultora pedagógica do programa LIV, Thauane Rocha.
Na conversa que você pode acompanhar a seguir em áudio ou em texto, ela explica a importância dos vínculos para os estudantes, conta como os educadores podem engajar mais seus alunos, tanto no ambiente presencial quanto no remoto, e traz ideias muito bacanas para colocar os conceitos em prática no cotidiano escolar.
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O que significa criar vínculos afetivos no ambiente escolar? E por que isso é importante para o desenvolvimento dos estudantes?
Thauane Rocha – É fundamental ter como ponto de partida a ideia de que o aprendizado não se dá só em sala de aula na exposição de conteúdo. Pensar conhecimento é entender que a escola é o espaço de socialização e de troca de experiências que permite o desenvolvimento dos alunos pela coletividade. É nesse ambiente que as crianças e os adolescentes passam parte do dia e é por isso que se faz imprescindível a criação de vínculos afetivos para que essa aprendizagem aconteça em um espaço acolhedor.
Essa integração permite o desenvolvimento do senso de coletividade, da empatia, a interação com pessoas, valores e ideias diferentes, além da valorização das individualidades para se pensar no coletivo. O ambiente escolar permite a criação de vínculos afetivos entre os alunos com os que o cercam, e não só professor ou colegas, mas com toda a comunidade escolar. Um funcionário da cantina, da portaria, da secretaria, acreditando que todos nós somos educadores, e por isso é essencial que se pense um ambiente de confiança. Para explorar isso, chame o aluno pelo nome, olhe nos olhos, se interesse pelos interesses e vida familiar dele, o inclua em processos de decisão na escola, isso permite que o estudante se sinta confortável para explorar suas potencialidades e falar de sentimentos, sonhos e também de dificuldades.
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Como o vínculo com a escola pode ser incentivado de maneira intencional por parte dos educadores?
Thauane Rocha – Demanda esforços pensar em alternativas para desenvolver vínculos mais afetivos na comunidade escolar que sejam significativos para os estudantes. Há momentos que a própria dinâmica escolar proporciona isso por si só, como é o caso da interação em sala de aula ou no recreio, por exemplo, mas fazer com que o aluno pense que ele faz parte de um todo e que isso implica diretamente no processo de aprendizagem exige um exercício contínuo do educador de acolhimento e construção de um ambiente confortável, junto à incorporação de uma atitude investigadora, que provoque o entendimento dos alunos enquanto sujeitos de múltiplas inteligências e com diferentes potencialidades para que possam oferecer um espaço para a construção de um conhecimento autônomo e coletivo ao mesmo tempo.
Por isso, pensar um momento para partilhar as vivências dos alunos é tão importante quanto pensar a prática de suas habilidades através do desenvolvimento de atividades que despertem o interesse discente para cultivar o sentimento de pertencimento ao espaço e os envolvam na construção e manutenção de um ambiente escolar saudável.
E isso pode ser pensado no planejamentos das aulas e de atividades de forma coletiva, na distribuição de responsabilidades, no envolvimento dos alunos em projetos que tragam benefícios para todos, não só para ele mesmo e para os amigos, e pensar que a construção de vínculos vem muito a partir de limites, responsabilidades e um pensamento ético sobre a coletividade.
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E como isso pode se dar no ensino remoto, considerando todas as dificuldades de interação presencial que temos vivenciado?
Thauane Rocha – É inegável que as transformações tecnológicas vêm resultando em mudanças e levantando debates importantes no campo educacional sobre a possibilidade de repensar práticas pedagógicas. Mas o ensino remoto exigiu uma adaptação repentina, e nós tivemos que adaptar com as ferramentas oferecidas na ocasião. Esse momento pandêmico, que impede a interação física, dificulta pensar o desenvolvimento social que parte do contato, mas não impede de pensarmos alternativas para a interação, ainda que online, e o aproveitamento das aulas como um momento de acolhimento em meio ao isolamento.
Esse pode ser o único momento que o estudante entra em contato com outras pessoas, por isso, vale pensar nas atividades também como uma forma de integração e construção de um sentimento acolhedor ao espaço, mesmo que virtual. Propor jogos, dinâmicas, brincadeiras, participação com a câmera ligada, ou pelo chat, o uso de ferramentas digitais, realização de exposições ou feiras culturais por meio de apresentação audiovisual para que os alunos de todas as séries consigam interagir uns com os outros, tornar as aulas mais atrativas com imagens, e debates que fazem parte do cotidiano dos alunos, questioná-los para uma maior participação em aula ou até mesmo chamar o aluno para criar uma aula junto com o professor.
Essa são algumas sugestões para lidar com essa interação no ensino remoto, mas vale lembrar que pensar essa adequação não desconsidera a competência técnico-científica do professor, mas a criação do vínculo afetivo está relacionada à construção de um ambiente favorável, onde entende-se esse movimento como necessário para a produção do conhecimento, principalmente nesse momento de distanciamento em que estamos sendo chamados a sermos mais flexíveis.
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Que ideias o material do programa LIV traz nesse sentido? Pode dar exemplos?
Thauane Rocha – O LIV, pensando em maneiras de lidar com essas questões criou um material complementar para auxiliar os professores não só na adaptação das aulas presenciais para o ensino híbrido ou totalmente remoto, mas oferecendo também uma lista de ferramentas digitais que podem ser utilizadas para tornar as aulas cada vez mais engajadoras.
Como é o caso do Padlet, que permite a criação de um mural colaborativo; do Jamboard, que possibilita a produção de atividades coletivas, assim como o Miro; do Mentimeter, que produz nuvem de palavras, e do Inshot, que é para edição de vídeos, entre outras ferramentas.
Além disso, nós também propomos algumas dinâmicas extras que podem ser utilizadas em momentos para quebrar o gelo, ou seja, aqueles momentos em que os alunos estão mais dispersos, cansados, introspectivos ou até mesmo tão agitados que têm dificuldade para se concentrarem.
São momentos que promovem interação e proporcionam algumas pausas. Um exemplo dessas dinâmicas é a da dublagem, que propõe a reflexão de diferentes formas de comunicação. Para a realização, um aluno deve mexer a boca enquanto outro lhe dubla. Caso a dinâmica seja realizada de maneira híbrida, ou seja, parte dos alunos presencial e parte remota, pela obrigatoriedade da máscara, não é possível a realização da atividade apenas mexendo a boca, por isso, peça que o aluno faça uma linguagem própria e que o outro faça papel de tradutor.
Para introduzir a dinâmica ao tema da aula, o professor pode optar por fazer uma rodada com tema livre e uma segunda revisitando o que foi trabalhado na aula anterior, por meio da dublagem.
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As famílias podem ajudar na manutenção do vínculo nesse período de afastamento? Se sim, quais recomendações você oferece nesse sentido?
Thauane Rocha – Esse período não afetou apenas a criança ou o adolescente, mas a família em geral, que precisou buscar diversas adaptações às atividades cotidianas, inclusive a própria relação com os filhos. E é perfeitamente esperado que todos estejam sob pressão diante dessas demandas que antes não existiam e que, por não ter vivido isso anteriormente, não tínhamos a solução ideal nem o repertório sobre o que devemos fazer. Por isso, antes de qualquer coisa, é preciso que tenhamos paciência e empatia com todos que estão envolvidos no processo de ensino e aprendizagem, inclusive com os professores. Nós sabemos que, principalmente, as crianças do ensino infantil e fundamental anos iniciais precisam de um apoio maior na realização das atividades. Esse apoio é fundamental. Mas é importante ter em mente que os estudantes precisam se desenvolver com o professor. Por isso, incentive essa relação e permita momentos de aula sozinhos, porque eles precisam construir o conhecimento e também criar mais autonomia.
A família pode mobilizar recursos e desenvolver algumas práticas na construção ou na manutenção dos vínculos dos filhos com as escolas e os colegas, como buscar fazer atividades juntos, incentivar que liguem as câmeras para que ocorra um contato visual nas aulas, questionar algo que aconteceu ou o que o filho aprendeu no dia. Separar momentos para aproveitarem juntos um jogo, uma refeição. Inclusive, o LIV tem jogos e atividades para serem feitos com a família. Conhecer canais de comunicação com a escola, tal como participar ou solicitar encontros com a escola para falar de sentimentos, e trazer conteúdos relevantes para o dia a dia familiar, incentivar os contatos e interação constante com os colegas, seja por jogos online ou ligação de vídeo. O mais importante é que a gente tenha em mente que não é porque estamos em distanciamento físico que precisamos nos isolar.
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O LIV – Laboratório Inteligência de Vida é um programa de educação socioemocional presente em mais de 350 escolas em todo o Brasil, criando espaços de fala e escuta para ampliar a compreensão de si, do outro e do mundo.
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