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Row of books on shelf

Ana Carolina Carvalho*

Você já percebeu como a afirmação de que a leitura é importante está em muitos lugares diferentes? Na mídia, na imprensa, nos discursos escolares, nos sites de editoras e por aí vai. Mas por que mesmo é importante? Para que ler literatura? Para que serve?

Se a gente pensar bem, ela não serve para nada. Mas também pode servir para tudo! Não serve para nada se a gente considerar que a literatura precisa ter uma utilidade. Por exemplo: ler para aprender a ser um bom cidadão. Ler para ter bons modos. Quem é que não se lembra dessa ideia da literatura ligada à moral? Esse foi um lugar destinado por muito tempo à literatura, sobretudo na escola. Você já deve ter pensado que era importante ler literatura para ensinar certas coisas ao seu filho ou sua filha. Podemos garantir: este não é o papel dela.

A literatura trata das complexidades do humano, fala das ambiguidades, da morte, do amor, do bem e do mal não como condições estanques ou excludentes, mas coexistentes em todos nós. As histórias desde sempre serviram para que as pessoas pudessem conhecer o mundo para além de suas vidas individuais, e ao mesmo tempo, a partir do que é comum no diverso, pudessem refletir sobre o que é humano, universal. A literatura, portanto, serve para tudo porque pode nos proporcionar identificações, reflexões sobre nós mesmos e sobre nossas vidas, podendo nos causar espanto ou curiosidade com o diferente.

Ler para imaginar

Você já parou para pensar que tudo o que foi criado pela humanidade, um dia foi imaginado, sonhado? A literatura nos apresenta outros mundos possíveis, nos leva para além do nosso entorno e das nossas experiências cotidianas. Ela nos brinda com descrições, narrativas, personagens fantásticos, saídas incríveis para a vida e alimenta a nossa imaginação. E, claro, contribui também para que possamos ser mais criativos, para que possamos imaginar e sonhar. Isso não é pouco.

Precisamos, sobretudo, de uma literatura que deixe espaços para a criação do leitor e que aposte em sua inteligência – que o encante, mas também apresente desafios – e, para isso, é preciso liberdade para ler. Mas, o que seria isso?

Vamos nos lembrar das fichas de leitura que tínhamos no nosso tempo de escola. Você se lembra que, após a leitura de um livro de literatura, tínhamos de dar respostas certas e únicas e tentar descobrir aquilo que o escritor ou escritora tinha “querido dizer” com o seu texto? Pois é. Nessa forma de aproximação da literatura, havia uma ideia corrente de que o texto continha um único sentido, e que restava ao leitor o papel de “descobrir” esse sentido único, em geral preconizado pelo adulto ou pela escola.

Acontece que a concepção de leitura foi mudando ao longo do tempo e, graças ao estudo de linguistas, pedagogos e psicólogos, passou-se a considerar com muita seriedade o “trabalho” do leitor na hora de ler. Embora o autor ou autora tenha, sim, intenções, e embora o texto esteja escrito de uma determinada maneira, a leitura depende de quem lê. Envolve atribuições de sentidos pelos leitores, depende do momento e lugar em que se lê, da experiência do leitor, de outros textos que já leu, de quem ele é, para que está lendo.

Por isso, dizemos que o leitor é ativo. A leitura contribui para a construção de uma autonomia do pensamento. Os leitores podem ter diferentes opiniões sobre os textos, podem construir caminhos de leitura distintos e fazer associações singulares e pessoais. A riqueza da leitura é justamente isto: um caleidoscópio de olhares, sentidos e interpretações.

Se a literatura não existe para nos moldar, ela ao menos nos ajuda a questionar sobre a vida, o mundo, as pessoas e nós mesmos. E se minha vida fosse assim? E se eu estivesse no lugar desse personagem? Por que a vida dele é dessa maneira? O que o fez tomar essas decisões e não outras? E por aí vai. A leitura de literatura pode nos fazer mais questionadores porque nos ajudam a perguntar, muito mais do que a achar respostas.

Também é importante dizer que não é qualquer literatura que faz questionar, que contribui para a autonomia do pensamento, mas necessariamente precisa ser uma literatura que aposte na inteligência do leitor, que o tenha como um interlocutor de peso. Difícil pensar em títulos a partir de algo tão genérico? Então, deixamos no final do texto o link para um vídeo da especialista em literatura infantil Daisy Carias, em que ela fala sobre bons livros infantis.

A importância da diversidade textual

No terreno da ficção, temos muitos textos diferentes: os contos, a poesia, o romance, a novela, os minicontos, os livros ilustrados, as lendas e os contos de fadas, que fazem parte da literatura tradicional ou popular e que não possuem autoria definida – uma ampla gama de textos que tratam daquilo que não é real. Cada gênero citado tem um determinado jeito de ser escrito, tem uma forma literária e traz expressões e construções típicas, convocando o leitor de diferentes modos.

Não basta saber ler para poder compreender todos os textos, ou seja, ler não é uma ação genérica, que eu desloco para um gênero ou outro. Saber ler é saber ler cada tipo de texto, reconhecendo suas peculiaridades, os jeitos como são escritos, como são lidos e para que servem. Fica fácil a gente entender isso quando fazemos a seguinte comparação: como lemos um livro de poesias e como lemos um romance? Certamente, os dois gêneros exigem saberes muito distintos do leitor e, portanto, não podemos supor que aquele que sempre leu romances vai saber ler poesia sem nunca ter tido contato com esse gênero.

E se isso acontece no terreno da ficção, acontece também com todos os outros textos, incluindo os de não ficção – os textos informativos, os jornalísticos, as biografias, as autobiografias, entre outros. Quando falamos em formação de leitores sempre devemos considerar uma variedade de leituras. Portanto, é muito importante garantir uma oferta variada de textos em casa, na escola, na visita à biblioteca ou à livraria, incentivando que as crianças possam conhecer diferentes textos.

Nem todo leitor gosta de ler os mesmos textos. A oferta variada é importante para ajudar o leitor a fazer suas escolhas. Há tantos textos e há tantos tipos de leitores, com preferências muito distintas. Não existe uma escolha melhor do que a outra. Ser leitor não é apenas ser leitor de literatura. Há também o leitor de textos jornalísticos, de textos informativos. Há quem leia livros teóricos com mais prazer do que lê romances, há quem prefira os poemas. Encontrar os livros, autores ou gêneros preferidos faz parte do caminho dos leitores, faz parte de seu trajeto e se constitui como um dos grandes prazeres do leitor.

O leitor do contemporâneo: papel e tela

A leitura nas redes ou nas telas nos convoca a uma leitura mais fluida: clicamos em links e criamos um caminho muito pessoal quando lemos na internet. Por mais que muitos se sintam saudosistas em relação ao tempo em que só havia o papel, não há como fugir: a tecnologia está aí. E nem como negar: ela nos abre muitas portas. Mas também não podemos negar as diferenças: a literatura nas telas não é a mesma que está no papel, o suporte influencia o texto e a relação com a narrativa.

O importante é que as duas formas possam conviver porque trazem diferentes desafios aos leitores. Se as duas formas pressupõem um leitor ativo, elas o fazem de diferentes maneiras: a interação do leitor do livro digital, que vem ganhando maior expressividade na literatura infantil, é diferente daquela do leitor do papel. Muitas vezes, cliques produzem sons ou levam a caminhos diferentes, assemelhando-se aos games, que já fazem parte do repertório das crianças e jovens. Muitos de nós torcemos o nariz justamente por isso. Devemos é olhar a qualidade e o quanto cada narrativa, seja na tela ou no papel, consideram a inteligência do leitor.

O livro como um objeto presente

O escritor Ricardo Azevedo fala de uma relação muito próxima com os livros na infância. Disse em uma entrevista ao Museu da Pessoa:

“Eu tinha, como eu disse, muito livro em casa. Eu nasci no meio de livros, o andar de cima da casa eram livros […]. O espírito da coisa era o seguinte: os livros estão aí, era como se fosse um pomar, na verdade. Você ia lá e pegava a fruta, experimentava, gostava; se não gostava, cuspia. Era essa a sensação que eu tinha. […] E o que eu fazia: tirava os livros das estantes e brincava, de carrinho, fazia umas casinhas, fazia uns castelos com os livros e brincava, era muito legal. Depois aos poucos fui descobrindo aqueles livros.”.

Museu da Pessoa. A ficção, a fantasia como forma de experimentar a verdade. História de Ricardo Azevedo. Publicado em 22/10/2008. Disponível em: http://www.museudapessoa.net/pt/conteudo/historia/a-ficcao-a-fantasia-como-forma-de-experimentar-a-verdade-49433/colecao/116940. Acesso em: out. 2018.

Ele nos fala da importância do contato com o livro primeiramente como objeto. Fala da importância do acesso, de sentir-se próximo aos livros. Estantes baixas, livros pela casa, uma oferta variada e constante. São condições que colaboram muito para a formação dos leitores, desde cedo, porque mostram que os livros têm espaço no cotidiano da casa, que têm valor e convidam para aproximações variadas até que as crianças possam se encontrar e descobrir o que há dentro dos livros.

O espaço como ambiente que convida a ler

Além da presença física dos livros, sabemos que alguns espaços podem ser mais convidativos do que outros. Você já reparou como as bibliotecas, livrarias e outros espaços destinados à leitura têm se preocupado com o conforto do leitor, deixando de lado ambientes áridos e restritos à mesa e cadeiras? Especialmente em casa, podemos pensar em ambientes aconchegantes para as crianças, reservando à experiência da leitura um canto específico: uma rede, um tapete com almofadas, uma estante com uma pequena poltrona. Detalhes que podem fazer a diferença para atrair os leitores e contribuir para que possam estender seu tempo para a leitura.

O adulto leitor: um incentivo para as crianças se tornarem leitoras

Pais e mães sabem: as crianças observam muito aquilo que fazemos. Não adianta dizer que precisamos ler, que é importante conhecer muitos livros e histórias, se nós mesmos nunca lemos, se nossos filhos nunca nos veem com livros nas mãos, ou com jornais, revistas etc. É preciso que nossos filhos possam observar que atribuímos valor à leitura, que ela é importante para nós também, que fazemos boas descobertas quando lemos.

À medida que as crianças crescem e se tornam leitoras autônomas, é comum diminuirmos nossas leituras conjuntas. Ler sozinho é um prazer que as crianças descobrem quando leem por conta própria e costumam ficar orgulhosas com essa conquista. Mas ler junto também guarda prazeres e bons momentos. Escolher um livro a dois ou a três, conversar sobre o que lemos, ter a ajuda do outro para explorar e compreender leituras mais difíceis, são todos bons motivos para uma leitura compartilhada, que, além de tudo, segue aprofundando vínculos.

Depois de ler, uma boa conversa pode enriquecer nossos olhares para o livro. Lembrando sempre que não existe uma única leitura, mas uma multiplicidade de olhares, associações e interpretações. Uma conversa deve fazer circular diferentes opiniões sobre o que foi lido. E certamente será um prazer e tanto poder ouvir o que aquela criança com a qual você convive diariamente tem a dizer sobre as palavras que acabaram de ler.

O que considerar ao montar uma biblioteca para seu filho ou filha? O que faz de um livro um bom livro?

  • Alguém assina o livro? Há alguém que se compromete com o texto escrito?
  • A ilustração amplia os olhares e referências estéticas da criança? Ou traz imagens estereotipadas, que podem ser encontradas na mídia? Há uma assinatura do ilustrador, um trabalho autoral? Alguns autores e estudiosos comparam o livro infantil com o primeiro museu de uma criança, dada a importância na qualidade dessas imagens.
  • Quanto ao projeto gráfico: é cuidadoso na escolha do papel e formato do livro? Dialoga com o conteúdo da história?
  • Se for uma versão de histórias tradicionais: há uma assinatura desse texto? O texto preserva a história ou simplifica demais o enredo? Há qualidade na edição como um todo?
  • Preste atenção na editora: há qualidade em seu catálogo? Toda editora tem um linha, um projeto editorial.
  • Escolha livros que apresentem graus de desafios diferentes. Às vezes, a criança quer sentir o prazer de ler um livro que domina facilmente. Em outros momentos, quer lançar-se em desafios.
  • Procure escolher livros que dialoguem com a experiência da criança, tratando-a com profundidade. Livros que abordem temas de seu interesse, ou que possam acolher sentimentos, pensamentos e preocupações que tem experimentado.

Para ir além:

1. Assista ao vídeo Direito à literatura em que o professor Antonio Candido fala sobre a importância da literatura para o ser humano. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?reload=9&v=4cpNuVWQ44E>. Acesso em: out. 2018.

2. Assista ao vídeo Saindo da zona de conforto: livros para refletir, da especialista em literatura infantil Daisy Carias, que fala sobre bons livros infantis que nos tiram da zona de conforto e nos ajudam a pensar sobre o mundo, todos nós – adultos e crianças. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=QjnGUGa9H5U>. Acesso em: out. 2018.

3. Leia o artigo O livro digital infantil e juvenil, de Marisa Lajolo. Disponível em: <http://revistaemilia.com.br/o-livro-digital-infantil-e-juvenil/>. Acesso em: out. 2018.

4. Veja a entrevista completa, A ficção, a fantasia como forma de experimentar a verdade, com Ricardo Azevedo, escritor brasileiro nascido em 1949, autor de muitos livros infantis e juvenis e de uma vasta obra de literatura popular. Disponível em: <http://www.museudapessoa.net/pt/conteudo/historia/a-ficcao-a-fantasia-como-forma-de-experimentar-a-verdade-49433/colecao/116940>. Acesso em: out. 2018.

5. Assista ao vídeo Memórias da literatura infantil e juvenil, em que a escritora Tatiana Belinky fala sobre a importância de ter vivido em um ambiente cheio de livros. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=S-t8EcAKelI>. Acesso em: out. 2018.

6. Assista ao vídeo A formação do leitor literário e observe o incentivo que a educadora Bia Gouveia deu a suas filhas e que livros procura oferecer a elas. Também neste video há o relato de como o escritor Danilo Gusmão foi tocado pela literatura e o que o influenciou nesse caminho. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=NZKeMTIjNIE>. Acesso em: out. 2018.

7. Lygia Bojunga é uma autora brasileira nascida em 1932. Entre seus livros, podemos destacar A bolsa amarelaOs colegas e Corda-bamba.

8. Ricardo Azevedo é um escritor brasileiro nascido em 1949. Entre seus livros, destacamos: Meu livro do folcloreHistórias de bobos, bocós, burraldos e paspalhões e Cultura da Terra.

9. Elias Canetti foi um escritor búlgaro que viveu entre os anos de 1905 e 1994. É autor de A língua absolvida; Uma luz em meus ouvidos, entre outros.

Desejamos a você e seus filhos um ótimo encontro com as palavras!

Referências bibliográficas

CALVINO, Italo. Fábulas italianas. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

REYES, Yolanda. Mundos possíveis. Disponível em: <http://revistaemilia.com.br/mundos-possiveis/>. Acesso em: out. 2018.

*Psicóloga pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Trabalha como formadora de professores e gestores escolares pelo Instituto Avisa Lá. É colaboradora no Instituto Emília, atua em programas de formação de leitores em editoras e é assessora de leitura em escolas da rede particular. É autora, em parceria com Josca Ailine Baroukh, do livro Ler antes de saber ler: oito mitos escolares sobre a leitura literária (Panda, 2018) e da novela juvenil A conta-gotas (SM, 2015).